Na última quarta-feira (08), Caitriona Balfe esteve ao vivo em sua conta do Instagram do Clube do Livro de Caitríona Balfe para discutir o livro de junho, Entre o Mundo e Eu do escritor Ta-Nehisi Coates.

Durante a discussão que durou quase uma hora, ela explicou que escolheu este livro pois já havia lido alguns textos do autor na revista New Yorker e gostado bastante da escrita dele, além de já ter assistido algumas de suas palestras. A atriz também queria uma leitura que abordasse um assunto mais atual.

Entre o Mundo e Eu – Ta-Nehisi Coates

  • 152 páginas
  • Editora Objetiva, primeira edição lançada em 16 de novembro de 2015
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Da Amazon Brasil: Ta-Nehisi Coates é um jornalista americano que trabalha com a questão racial em seu país desde que escolheu sua profissão. Filho de militantes do movimento negro, Coates sempre se questionou sobre o lugar que é relegado ao negro na sociedade. Em 2014, quando o racismo voltou a ser debatido com força nos Estados Unidos, Coates escreveu uma carta ao filho adolescente e compartilha, por meio de uma série de experiências reveladoras, seu despertar para a verdade em relação a seu lugar no mundo e uma série de questionamentos sobre o que é ser negro na América. O que é habitar um corpo negro e encontrar uma maneira de viver dentro dele? Como podemos avaliar de forma honesta a história e, ao mesmo tempo, nos libertar do fardo que ela representa? Em um trabalho profundo que articula grandes questões da história com as preocupações mais íntimas de um pai por um filho, Entre o mundo e eu apresenta uma nova e poderosa forma de compreender o racismo. Um livro universal sobre como a mácula da escravidão ainda está presente nas sociedades em diferentes roupagens e modos de segregação.

O vídeo, ainda sem legendas, pode ser conferido a seguir; infelizmente, Caitríona Balfe não consegui salvá-lo em seu perfil do Instagram. Abaixo dele, estão os principais destaques da discussão de julho do Clube do Livro de Caitriona Balfe.

  • Este livro, que é uma carta de um pai para um filho, possui uma certa ligação com o livro anterior do Clube do Livro, On Earth We’re Briefly Gorgeous de Ocean Vuong (infelizmente sem tradução em português), que é uma carta de um filho para uma mãe, contou Caitríona Balfe. Este foi um dos motivos para a escolha do título.
  • Ao ler as mensagens enviadas pelos leitores durante a semana, Caitríona Balfe percebeu que todos ficaram incrivelmente emocionados com a leitura.
  • No início da conversa e em alguns outros momentos, ela explicou que não a intenção não é falar mal dos Estados Unidos durante a discussão.
  • Caitríona Balfe explicou, também, que separou algumas perguntas e tópicos e alguns trechos do livro que fundamentam as suas respostas.

O que mais chamou atenção de Caitríona Balfe no livro

Segundo Caitríona Balfe, o profundo desejo do autor em proteger seu filho foi o que mais chamou a atenção dela e o que mais a tocou, durante a leitura. Ela ainda destacou como é muito triste que para muitas pessoas, a realidade é gastar muita energia e muito tempo da vida delas na luta pela sobrevivência.

E o que eu acho que foi o mais cativante e extraordinário de se tirar deste livro é a quantidade de medo e sufoco em ser a vítima de uma sociedade racista onde o racismo institucional existe, o quanto isso estrangula as pessoas e a capacidade delas de sonhar, de ver e de tentar seguir em frente.” – Caitirona Balfe

A atriz se recordou que cresceu em uma cidadezinha na Irlanda cuja população era exclusivamente branca, mas que era dividida por outros fatores, como o catolicismo e o protestantismo. Para ela, a sociedade sempre encontra motivos para se dividir e viver em “tribos”. Caitríona Balfe explicou, também, que cresceu vendo um EUA que parecia ótimo, com abundância, o chamado ‘sonho americano’, se podemos chamar assim. No entanto, quando ela chegou ao país para morar lá (durante sua carreira de modelo), viu que havia outro lado da sociedade que não é para todos. O livro aborda isso.

Há um problema sistêmico nessa ideia de que você deve manter um grupo de pessoas embaixo, para que outras pessoas sintam que realizaram o Sonho. E toda essa ideia de Sonhadores era muito, muito poderosa. E essa ideia do que é esse sonho que as pessoas têm, em que ele se baseia e as custas de quem ele é realizado.” – Caitirona Balfe

Trechos com os quais Caitríona Balfe se identificou por causa de experiências pessoais

Outro assunto abordado no livro que chamou a atenção de Caitríona Balfe foi de que a educação não é uma chave para a liberdade, pois o sistema de educação faz parte do problema. A atriz disse que se identificou com isso, pois se lembrou de que, crescendo numa cidade pequena e muito acolhedora, ela não se sentiu encorajada, principalmente nos primeiros anos escolares, a sonhar alto. Ela não sabia muito do mundo exterior ao de onde cresceu e muitas das coisas pareciam impossíveis para ela. Caitríona Balfe contou que não cresceu com muito dinheiro, muito menos sendo da classe média alta, a família dela era da classe trabalhadora e vivia no interior. Apenas quando ela chegou no ensino médio, as coisas mudaram um pouco em relação a ser encorajada a sonhar alto.

Eu não saí da Irlanda até ter 17 anos. E quando eu tinha 17 anos, sabia que poderia ir para outro país e que haveriam outras línguas. O mundo não parecia ser tão fechado.”  – Caitirona Balfe

Ela explicou que viver na Europa te permite ir para outro país e experimentar outra cultura, mesmo que você não tenha muito dinheiro e isso é o contrário do que acontece nos Estados Unidos, por exemplo. Como este é um país muito vasto, muitos estadunidenses não saem dele e isso pode fazer parecer que seus cidadãos estão presos num sistema e não conseguem ver o que há fora dele.

Para justificar este debate, Caitríona Balfe leu o trecho do livro a seguir. Ela também disse que achou este trecho de partir o coração, pois não estamos ensinando as pessoas a pensarem ou se abrirem e acreditarem nas possibilidades, mas sim a serem conformadas.

Lembro-me das aulas de francês no sétimo ano, quando eu não fazia a menor ideia de por que estava ali. Eu não conhecia franceses e nada a minha volta sugeria que um dia conheceria. A França era uma rocha que girava em outra galáxia, em torno de outro sol, em outro céu que eu jamais cruzaria. Por que, exatamente, eu estava sentado naquela sala de aula?

Essa pergunta nunca teve resposta. Eu era um menino curioso, mas as escolas não davam atenção à curiosidade, e sim ao consentimento. Eu gostava de alguns de meus professores. Mas não posso dizer que acreditava de verdade em qualquer um deles. Alguns anos após ter saído da escola, depois de abandonar a faculdade, ouvi alguns versos de Nas que tiveram impacto em mim:

Ecstasy, coke, you say it’s love, it is poison (Ecstasy, cocaína, você diz que isso é amor, isso é veneno)
Schools where I learn they should be burned, it is poison. (Escolas onde aprendi que deviam ser queimados, isso é veneno.)

Na época, era exatamente assim que eu me sentia. Percebia que as escolas estavam escondendo algo, nos drogando com uma falsa moralidade para que não enxergássemos, e assim não perguntássemos: Por que — para nós e apenas para nós — o outro lado do livre-arbítrio e do espírito livre é um ataque a nossos corpos? Não é uma preocupação exagerada. Quando os mais velhos nos apresentaram a escola, eles não a apresentaram como um lugar de alto aprendizado, mas como um meio de escapar da morte e do confinamento penal. Nada menos que 60% dos jovens negros que abandonam o ensino médio vão parar na cadeia. Isso deveria ser a desgraça do país. Mas não era. E embora eu não pudesse esmiuçar os números ou examinar a história, sentia que o medo que era a marca do oeste de Baltimore não podia ser explicado pelas escolas. Escolas não revelam verdades, elas as ocultam.

Trecho de Entre o Mundo e Eu, pp. 30 e 31

A atriz leu mais um trecho do livro com o qual se identificou, quando o autor estava em Paris, pois este foi o primeiro país no qual ela morou, após sair da Irlanda.

Caminhei até o Jardim de Luxemburgo. Eram cerca de quatro da tarde. Sentei-me. O jardim fervilhava de gente, com todos os seus modos alienígenas. Naquele momento, fui tomado de uma estranha solidão. Talvez porque não tivesse falado uma única palavra em inglês durante o dia inteiro. Talvez porque nunca tivesse me sentado num jardim público antes, nem mesmo imaginado que isso era algo que eu gostaria de fazer. E a toda a minha volta havia pessoas que faziam isso com regularidade.

Ocorreu-me que eu estava realmente no país de outras pessoas, e, ainda assim, necessariamente, eu estava fora do país delas. Na América eu era parte de uma equação — mesmo não sendo uma parte que eu apreciasse. Era aquele que a polícia fazia parar na 23rd Street no meio de um dia útil. Eu era aquele que fora conduzido até a Meca. Não era apenas um pai, mas o pai de um garoto negro. Não era só um esposo, mas o marido de uma mulher negra, um símbolo fretado de amor negro. Sentado naquele jardim, porém, pela primeira vez eu era
um alienígena, era um marinheiro sem terra e desconectado. E lamentava não ter sentido antes essa solidão particular, nunca ter me sentido tão distante e fora do sonho de outra pessoa. Agora eu sentia o peso mais profundo das correntes da minha geração — o confinamento do meu corpo, pela história e pela polícia, a certas zonas. Alguns de nós conseguem superar isso. Mas o jogo é jogado com dados viciados. Eu queria ter sabido mais, e ter sabido mais cedo.

Trecho de Entre o Mundo e Eu, pp. 91 e 92

Caitríona Balfe disse que, para ela, esta foi a maior tragédia do livro: quando as pessoas crescem sem ver a ideia de possibilidade e de ver a vida delas como algo singular e não como parte de um sistema.

Ainda comentando o trecho acima, a atriz tocou no assunto do privilégio branco, algo que muitos dizem não existir, simplesmente por não serem ricos ou não terem crescido com dinheiro.

Não se trata disso. Se trata do fato de que mesmo que você tenha crescido em partes do mundo que tenham suas divisões, seja você católico ou protestante, irlandês ou inglês, escocês ou o que for… Isso não é a primeira coisa que as pessoas veem em você. Você tem a oportunidade de, pelo menos, dizer o seu nome, se explicar, antes que as pessoas saibam essas coisas sobre você. Trata-se desta ideia de que do minuto que você sai pela sua porta, você é julgado. E acho que isso deve ser a coisa mais exaustiva e aterrorizante e ele fala sobre isso, ‘Você precisa ser duas vezes melhor, você precisa ser duas vezes melhor.’ e essa ideia de ser duas vezes melhor para alcançar qualquer coisa é simplesmente… uma pena.” – Caitirona Balfe

Conselhos de um pai para um filho

Caitríona Balfe contou que a história ser contada em um formato de carta de pai para filho faz ela ser comovente e de partir o coração, quando se percebe que, geração após geração, pais ficam preocupados não só com a segurança do corpo de seus filhos, mas com o espírito deles também, com o quanto eles podem sonhar, sentir ou experimentar. Ela disse que uma das coisas que foi muito palpável durante a leitura foi o sufoco, a ansiedade e o medo do autor em saber que você é responsável por outra vida que está no mundo, como essa vida se sente e como vai sobreviver; por mais que ele dê todas as oportunidades para o filho, isso ainda não é o suficiente.

E sentia que havia nisso uma injustiça cósmica, uma profunda crueldade, que infundia um duradouro e irreprimível desejo de libertar meu corpo e atingir a velocidade de escape.

Você alguma vez sentiu essa necessidade? Sua vida é tão diferente da minha. A grandeza do mundo, do mundo real, o mundo inteiro, para você, é coisa sabida. E você não precisa de transmissões de TV porque viu muita coisa da galáxia americana e seus habitantes — suas casas, seus hobbies — muito de perto. Não sei o que significa crescer com um presidente negro, redes sociais, uma mídia onipresente e mulheres negras por toda parte com seu cabelo natural. O que sei é que quando eles soltaram o homem que matou Michael Brown, você
disse: “Vou indo”. E isso me toca porque, apesar de toda a diferença entre nossos mundos, na sua idade meu sentimento foi exatamente o mesmo.

Trecho de Entre o Mundo e Eu, p. 21

A mãe desse menino negro assassinado foi depois apresentar o caso a jornalistas e escritores. Nós nos encontramos com ela no saguão de seu hotel na Times Square. Ela tinha altura mediana, pele marrom e o cabelo caído nos ombros. Ainda não se passara uma semana do veredicto. Mas ela estava calma e totalmente senhora de si. Não manifestou raiva ao assassino, mas se perguntava se as regras que transmitira ao filho tinham sido suficientes. Ela tinha desejado que o filho defendesse aquilo em que acreditava e que fosse respeitoso. E ele havia morrido por acreditar que seus amigos tinham o direito de ouvir sua música no volume que quisessem, de ser adolescentes americanos. Mais uma vez, ela se perguntava: “Em minha mente eu ficava dizendo: ‘Se ele não tivesse retrucado, falado alto, será que ainda estaria aqui?’”.

Ela não esqueceria a singularidade do filho, sua vida única. Não esqueceria que ele tinha um pai que o amava, que ficava com ele enquanto ela lutava contra o câncer. Não esqueceria que ele animava as festas, que sempre tinha novos amigos para ela levar em sua minivan. E que continuaria vivo no trabalho dela. Eu lhe disse que o veredicto me enraivecera. Disse-lhe que a ideia de que alguém naquele júri pensasse ser plausível haver uma arma no carro era injuriante. Ela disse que ficara injuriada também, e que não interpretasse mal sua calma como uma demonstração de que não estava com raiva. (…) Depois a mãe do menino assassinado levantou-se, virou-se para você e disse: “Você existe. Você tem importância. Você tem valor. Você tem todo o direito de usar seu blusão com capuz, de tocar sua música tão alto quanto queira. Você tem todo o direito de ser você. E ninguém pode impedi-lo de ser você. Você tem de ser você. E nunca deve ter medo de ser você”.

Trecho de Entre o Mundo e Eu, p. 84

Imagine ter que dizer a um adolescente que tudo bem vestir uma blusa com capuz… ou ouvir música alta.”  – Caitirona Balfe

Racismo

Ao ser questionada se achava que o racismo estava diminuindo de geração para geração ou se era apenas o ambiente que Ta-Nehisi Coates e sua companheira criaram para o filho que faz parecer isso, Caitríona Balfe respondeu que, para ela, isso não está acontecendo, mas sim mudando e se tornando menos óbvio.

Mas acho eu poderia estar errada.Sou apenas uma pessoa pensando. Parece para mim que ele [o racismo] sofre mutações e deixa de ser escancarado e as pessoas se sentem confortáveis ​​em se sentir confortáveis ​​com isso, para depois se tornam subvertidas e se voltam para essa ideia sistêmica e por que, em vez da escravização, temos prisão. A quantidade de corpos, corpos humanos encarcerados pela vida toda, que são forçados a trabalhar. Não é trabalho escravo, é trabalho encarcerado. É diferente? Você deveria ir para a cadeia porque, sabe, furou um semáforo e não pode pagar sua multa? E daí, como você não pode pagar sua multa, recebe uma multa extra, além daquela multa. E aí, como você não pode pagar, é enviado para a cadeia? Porque é isso que está acontecendo no mundo. E não são apenas os assassinos e estupradores que vão para a cadeia. São pessoas que simplesmente não podem pagar sua fiança ou não pagam uma multa. Um multa de estacionamento ou de condução. Isso é loucura para mim. E a quantidade de empresas, grandes corporações, que estão ganhando dinheiro com esse trabalho encarcerado? E acho que é aqui que todos temos um papel a desempenhar, porque, como estamos descobrindo, não está tudo bem apenar dizer “não sou racista” ou “sou aliado”. É tipo, “O que vamos fazer?” O que precisamos fazer é nos educar. Temos que descobrir, “Certo, bem, quais são essas empresas que usam o trabalho encarcerado que utilizam sem pagar nada e os lucros que estão tirando da vida dessas pessoas, que foram encarceradas por quase nada?” Não deveríamos comprar dessas empresas. Devemos responsabilizar essas empresas. Temos que votar. Temos que votar nas eleições locais. Temos que votar e garantir que as pessoas que nos representam, seja no conselho da comunidade local ou seja lá onde for, que eles representam os ideais mais elevados da humanidade. E eu realmente não acho que isso seja uma declaração política e eu odeio que aqui, na Irlanda, na América, sabe, que a política tenha se tornado isso ou aquilo ou branco e preto. Sabe, republicanos, democratas, partido conservador. Temos que esquecer isso, temos que nos esforçar para ser o melhor da humanidade e eleger as pessoas que farão isso. E também devemos tirar tanto dinheiro da política quanto possível, porque quando há dinheiro na política, é aí onde está a corrupção. Enfim, eu divaguei.” – Caitríona Balfe

Ela se recordou de ter lido a discussão dos leitores sobre o que é a construção da raça e o que é raça e comentou:

“É apenas a diferença no pigmento da sua pele. Isso na verdade não existe, a não ser que forcemos isso. Nós criamos essa ideia de uma raça e outra raça, mas somos todos seres humanos.” – Caitríona Balfe

A atriz escolheu o trecho do livro a seguir que ilustra essa discussão.

Fiz uma pesquisa sobre a Europa pós-1800. Vi negros, representados através de olhos “brancos”, diferentes de tudo que tinha visto antes — pareciam régios e humanos. Lembro-me do rosto suave de Alexandre de Médici, do porte real da magia negra de Bosch. Essas imagens, feitas nos séculos XVI e XVII, contrastavam com aquelas criadas depois do advento da escravatura, as caricaturas de Sambo que eu sempre conhecera. Qual era a diferença? No decurso de minha pesquisa sobre a América eu tinha visto figuras de irlandeses desenhadas da mesma maneira voraz, libidinosa e simiesca. Talvez tenha havido outros corpos, ridicularizados, aterrorizados e inseguros. Talvez os irlandeses também tenham perdido seus corpos. Talvez ser chamado de “negro” não tenha nada a ver com nada disso; talvez “negro” seja apenas o termo de alguém para dizer que está por baixo, no fundo, um homem tornado objeto, um objeto tornado pária.

Trecho de Entre o Mundo e Eu, pp. 48 e 49

Ela seguiu falando sobre raça e parafraseou Toni Morrison, perguntando:

O que você é, se eu tirar a sua raça? Você é bom, forte, alto, inteligente? Acho que todos nós temos que perceber que essa ideia de… quando você vê essas pessoas gritando. Sabe, temos aqui a English Defense League, você vê esses neo-nazis ou nazis da direita. Tipo, o que você é? Você tem tão pouco na sua alma e tão pouco em você que é o pigmento da sua pele que te faz especial? Isso é muito triste.” – Caitríona Balfe

Os trechos do livro escolhidos que têm a ver com este assunto, de acordo com Caitríona Balfe, são os seguintes.

“As duas grandes divisões da sociedade não são ricos e pobres, mas brancos e negros”, disse John C. Calhoun, o grande senador da Carolina do Sul. “E todos os primeiros, tanto pobres quanto ricos, pertencem à classe superior, e são respeitados e tratados como iguais.” E aí está — o direito de quebrar o corpo negro e o significado da sua sagrada igualdade. Esse direito sempre lhes deu um significado, sempre significou que havia alguém lá embaixo no vale, porque uma montanha não é uma montanha se não houver nada abaixo dela.

Você e eu, meu filho, somos esse “abaixo”. Isso era verdadeiro em 1776. Isso é verdadeiro hoje. Não há eles sem você, e sem o direito de quebrá-lo eles necessariamente têm de cair da montanha, perder sua divindade e tropeçar para fora do Sonho. E depois terão de determinar como construir seus subúrbios sobre outra coisa que não ossos humanos, como angular suas prisões para que sejam outra coisa que não currais humanos, como erigir uma democracia independente de canibalismo. Mas, porque se acreditam brancos, preferem permitir em suas leis que um homem sufocado até a morte seja filmado como notícia. Preferem alimentar o mito de Tray von Martin, pequeno adolescente, as mãos cheias de guloseimas e refrigerantes, transformado em monstro assassino. E preferem ver Prince Jones ser seguido por um mau policial através de três jurisdições e morto a tiros por agir como um ser humano. Preferem, em toda a sua sanidade, estender a mão e empurrar meu filho de quatro anos como se ele fosse meramente um obstáculo no caminho de seu importantíssimo dia.

Trecho de Entre o Mundo e Eu, pp. 79 e 80

O fato é que, apesar de seus sonhos, suas vidas tampouco são invioláveis. Quando sua própria vulnerabilidade torna-se real — quando a polícia decide que as táticas que visam ao gueto deveriam ter um uso mais amplo, quando a sociedade armada atira em seus filhos, quando a natureza envia furacões contra suas cidades —, eles ficam chocados de uma maneira que, para aqueles de nós que nasceram e foram criados para compreender relações de causa e efeito, é simplesmente impensável.

Trecho de Entre o Mundo e Eu, p. 81

E ela não pôde recorrer a seu país para obter ajuda. No que concernia a seu filho, o país da dra. Jones fez o que fazia melhor — ele o esqueceu. O esquecimento é um hábito, e é ainda um componente necessário do Sonho. Eles tinham esquecido a escala do roubo que os enriquecera com a escravidão; o terror que lhes permitiu, durante um século, furtar votos; a política segregacionista que lhes deu os subúrbios. Eles tinham esquecido, porque lembrar seria derrubá-los do belo Sonho e forçá-los a viver aqui embaixo conosco, aqui embaixo no mundo. Estou convencido de que os Sonhadores, ao menos os Sonhadores de hoje, prefeririam uma vida branca a uma vida livre. No Sonho eles são Buck Rogers, o príncipe Aragorn, toda uma raça de Sky walkers. Despertá-los seria revelar que são um império de humanos e, como todos os impérios de humanos, estão construídos sobre a destruição do corpo. Seria manchar sua nobreza, fazê-los humanos vulneráveis, falíveis, quebráveis.

Trecho de Entre o Mundo e Eu, pp. 103 e 104

Caitríona Balfe disse que foi e voltou nesse livro muitas vezes, pois há muitas passagens nele que mexem com você, coisas que você acha que sabe e coisas que você pode apenas imaginar como é. Ela leu mais um trecho do livro em que o autor pediu ao filho para ele nunca se esquecer que vive em um país em que seu povo viveu mais tempo como escravos do que como pessoas livres. A atriz se mostrou indignada com o pensamento de muitas pessoas que acham que racismo não é algo que deve ser debatido, confrontado e mudado.

Nunca se esqueça de que estivemos escravizados neste país por mais tempo do que temos sido livres. Nunca se esqueça de que durante 250 anos os negros nasciam acorrentados — gerações inteiras seguidas de mais gerações que nada conheciam além de suas correntes.

Trecho de Entre o Mundo e Eu, pp. 57 e 58

Uma participante do Clube do Livro disse que racismo acontece em todo lugar e Caitríona Balfe concordou, dizendo que isso está ligado com as classes sociais e que sempre achamos, como sociedade, que uma parcela deve estar embaixo, para que outra parte dela se sinta “por cima”; isso é predominante em todos os países, em todos os lugares.

A atriz enfatizou, mais uma vez, que para combater o racismo, não basta não sermos racistas, mas precisamos garantir que estamos nos responsabilizando, como sociedade. Ela disse saber que esse é, também, um problema na industria do entretenimento e como eles podem encorajar e abrir espaço para pessoas negras nessa indústria.

Os passos [para fazer isso] são mais fáceis do que imaginamos. Trata-se de não ser cego, não viver no “sonho” que ele fala e não estar vendado para a experiencia de outras pessoas.” – Caitríona Balfe

No final do livro, Ta-Nehisi Coates fala do aquecimento global e de como estamos usando os recursos naturais sem nos preocupar com as consequências e com o preço a ser pago por isso. Seguindo este pensamento, Caitríona Balfe nos lembrou que são os países menos desenvolvidos que sofrerão mais com as mudanças climáticas e que devemos nos policiar para diminuir esses danos.

Houve tempo em que os parâmetros do Sonho estavam confinados na tecnologia e nos limites dos cavalos-vapor e do vento. Mas os Sonhadores se aprimoraram, e o represamento de mares para obter energia, a extração de carvão e a transmutação de petróleo em alimento permitiram uma expansão do saque sem precedentes. E essa revolução liberou os Sonhadores para saquear não somente os corpos de humanos, mas o corpo da própria Terra. A Terra não é uma criação nossa. Ela não tem respeito por nós. Não tem como fazer uso de nós. E sua vingança não é o fogo nas cidades, mas o fogo no céu. Algo mais ameaçador do que Marcus Garvey está montado no turbilhão. Algo mais terrível do que todos os nossos ancestrais africanos está se elevando com os mares. Os dois fenômenos são conhecidos um do outro. Foi o algodão que passou por nossas mãos acorrentadas que inaugurou esta era. Foi sua fuga de nós que os alastrou pelas florestas subdivididas. E os métodos de transporte através dessas novas subdivisões, através desse alastramento, é o automóvel, o laço em torno do pescoço da terra e, afinal, dos próprios Sonhadores.

Trecho de Entre o Mundo e Eu, p. 108

Ao pensar no que podemos fazer para ajudar a diminuir o impacto do aquecimento global, Caitríona Balfe se lembrou de como estamos acostumados a viver com algumas conveniências que não existe necessariamente para todos, implicando que esse tipo de coisa nem sempre são necessárias.

Outros

A atriz sabia que esse livro abordaria apenas um ponto de vista exclusivamente masculino e o próprio autor menciona que sabe que o que aconteceu com o corpo negro masculino não é a mesma coisa que acontece com o corpo negro feminino nos EUA, dizendo que sua parceira o ensinou muito sobre isso. Dito isso, ela explicou que gosta de alternar as escolhas de livros entre um autor e uma autora.

Caitríona Balfe disse que muito difícil ter uma conversa sobre este assunto, quando ela é a única falando, mas ela esperava que todos concordassem com as suas opiniões.

Acredito firmemente que qualquer pessoa que esteja lendo este livro pode ter empatia e compreensão de como deve ser essa experiência. E eu sinto que se você faz parte do meu clube do livro, você definitivamente é dessa ideia.” – Caitríona Balfe

No final, a fundadora do Clube do Livro foi solidária com os dias difíceis de todos nós, não apenas em relação a pandemia do novo Coronavírus, e espera que este seja um momento de mudança para toda a nossa sociedade. Ela finalizou a discussão com um agradecimento e desejos de uma sociedade melhor para todos.

Um enorme obrigada a todos por se juntarem a mim. Espero que essa conversa tenha sido legal para todos. Acho que tem sido um momento muito importante para todos nós para tentarmos o melhor para ler, explorar e nos educar para, assim, podermos usar este momento como um movimento de mudança mundial muito positiva que todos podemos nos orgulhar.” – Caitriona Balfe

A escolha do livro do Clube do Livro de Caitríona Balfe de julho foi baseada no país de origem da autora: Índia. A atriz compartilhou que queria outro livro que viesse de uma sociedade que  também sofre com as questões de classe simplesmente por causa de uma “raça”. Caitríona Balfe leu outro livro de Arundhati Roy, O Deus das Pequenas Coisas, e gostou, portanto decidiu escolher o mais novo livro da autora, O Ministério da Felicidade Absoluta, disponível em português através da Companhia das Letras. Ela informou que ainda não conseguiu ler o livro escolhido, pois precisa ler um livro para um trabalho, mas estava ansiosa para lê-lo.