Harper’s Bazaar: Caitriona Balfe fala sobre o trauma sofrido por Claire no final da temporada de ‘Outlander’

  • 12 de maio de 2020

A atriz e produtora executiva esmiúça os momentos mais pesados do episódio e o que ela espera da próxima temporada de Outlander

Aviso: Este artigo inclui discussões sobre abuso sexual. Aconselha-se a discrição do leitor.

Claire Fraser não está alheia a brutalidade. A primeira vez que vemos nossa heroína de Outlander, interpretada por Caitriona Balfe, na tela, ela está calmamente cuidando da perna terrivelmente mutilada de um soldado, seu rosto está coberto de sangue arterial e sua vida se tornou um pouco menos penosa após o término da Segunda Guerra Mundial. Desde que voltou no tempo para a Escócia do século XVIII, Claire passou por todo tipo de traumas – morte, aborto espontâneo, violência física e emocional nas mãos de inúmeros vilões – e saiu mais resistente do que nunca. Mas o final da quinta temporada centra no que pode ser a provação mais horrível de Claire até agora, após seu sequestro, feito por Lionel Brown e seus homens no clímax do episódio anterior. Os momentos de abertura desorientadores do episódio “Never My Love” mostra Claire em uma paisagem idílica, mas surreal, dos anos 1960, sugerindo imediatamente que este não será um episódio comum de Outlander. Logo fica claro que esta é a tentativa desesperada do cérebro dela de lidar com traumas indescritíveis quando ela é amordaçada, espancada e estuprada por vários homens.

Outlander sempre foi fascinado com a dinâmica do sexo e do poder e, por extensão, com as maneiras pelas quais a agressão sexual é usada como arma. Desde quando Jamie Fraser (Sam Heughan) foi estuprado por Black Jack Randall no final da primeira temporada, a série atraiu elogios por seu retrato incomum da violência sexual e seu impacto psicológico duradouro. Mais recentemente, porém, principalmente após o estupro de Brianna Randall Fraser (Sophie Skelton) na última temporada, também houve críticas ao que alguns consideram uma dependência excessiva do estupro como fonte de conflito e drama; algo que está nos romances de Diana Gabaldon, na qual a série se baseia. Embora Claire seja prontamente resgatada no meio do final da temporada, este episódio continuará uma conversa longa e, às vezes, cheia de discussões sobre o papel da violência sexual em Outlander.

É uma linha muito difícil que precisamos seguir,” Balfe  disse por telefone na semana passada. “Obviamente, tentamos manter o máximo de fidelidade possível aos livros, e [estupro] é algo que aparece com bastante frequência nas histórias de Diana. Quando se tem oito ou nove livros publicados no espaço de 20 anos, provavelmente não parece que exista muito, mas quando você está comprimindo tudo isso para a TV, isso se torna bastante difícil. Só podemos tentar fazê-lo da maneira mais respeitosa e, suponho, com o maior empoderamento possível.

Tanto para Caitriona Balfe quanto para os roteiristas do episódio, Matthew B. Roberts e Toni Graphia, o sequestro de Claire, retirado do sexto livro de Gabaldon, Um Sopro de Neve e Cinzas, em vez do livro cinco, como na maior parte da temporada, foi algo sensível de abordar. Eles consideraram fazer todo o incidente acontecer fora da tela, mostrando apenas as consequências, mas Balfe recusou essa opção.

Eu senti que se vamos fazer essa história, temos que fazê-la ter um proposito,” ela explica ela, “e fazê-la dizer algo sobre a experiência que talvez possa adicionar algo positivo ao assunto.” A cena teve que permanecer fundamentada na experiência de Claire, sem mostrar detalhes gratuitos ou dar muita ênfase aos agressores. Sendo Outlander, talvez não seja surpresa que a solução seja viajar no tempo.

Para Balfe, a sequência de cenas deu certo quando Roberts sugeriu a ideia de alternar imagens do futuro de uma realidade imaginária e impossível dos anos 1960, na qual Claire, Jamie e toda a sua família se reúnem para o jantar de Ação de Graças em uma casa de campo pitoresca e distintamente moderna. Enquanto Claire entra e sai da consciência, durante sua provação, ela se refugia nessa sequência dissociativa de sonhos, onde as coisas parecem bucólicas, mas desconfortáveis.

Passamos por alguns rascunhos [de roteiro], tentando chegar ao lugar certo“, lembra Balfe, que foi produtora executiva pela primeira vez na quinta temporada e apreciou seu papel expandido no processo. “Queríamos ter certeza de que estava muito claro que esse é um estado dissociativo e é um mecanismo que Claire usa e que não se tornou: ‘Oh, olha que legal é ter todo mundo nos anos 60!’” É fácil entender essa preocupação – os fãs sabem há muito tempo que Jamie não tem a capacidade de viajar no tempo, o que torna a oportunidade de vê-lo na linha do tempo dos anos 1960 irresistivelmente tentadora. “No início, quando os roteiristas tiveram essa ideia, eles se perderam um pouco na emoção dessa noção, e definitivamente tivemos que recuar bastante”.

Por exemplo, Balfe diz que Claire, originalmente, tinha muito mais diálogo durante a sequência imaginária, que foi retirada e aprimorada para garantir que ela acompanhasse a realidade do que estava acontecendo com ela. “Eu senti que era muito importante que a única vez que a ouvíssemos falar fosse dizer ‘não’, porque era o que ela estaria dizendo na realidade ou chamando por Jamie. Essas são as únicas duas vezes em que você ouve Claire dizer alguma coisa, durante todo esse estado de imaginação desassociada. Ela nunca participa da conversa.” Longe de ser o momento para agradar os fãs que ele poderia ter sido, a sequência de cenas do jantar foi projetada para manter Claire um grau distante, de modo que “sempre sabemos que a razão pela qual estamos lá é que algo realmente terrível está acontecendo com Claire e ela construiu esse lugar como um local seguro para sua mente.

A frágil sensação de paz dentro da sequência de cenas finalmente desmorona com a chegada de dois policiais uniformizados que dizem a Claire que sua filha Bree, o genro Roger e o filhos deles foram mortos em um acidente de carro. É um momento chocante que confunde a ansiedade real de Claire sobre o destino do casal – que, até onde ela sabe, acabou de viajar de volta, através das pedras, para o futuro – com a morte de seu primeiro marido, Frank, em um acidente de carro por volta de 1966. “É interessante que ela confunda essas duas ideias de Brianna e Frank“, reflete Balfe, observando que a época tem um significado adicional para Claire. “Houve um período depois que Frank morreu, e antes que ela voltasse ao passado para encontrar Jamie, quando Claire era a sua própria mulher. Ela estava no controle de sua própria vida e de seu próprio destino como mulher trabalhadora moderna e, neste momento de impotência, é por isso que ela foi a esse lugar.”

Apesar dos tremores de trégua oferecidos pela sequência dos sonhos, os 20 minutos de tela que Claire passa em cativeiro são quase insuportáveis de assistir, repletos de close em seu rosto aterrorizado. “A nossa equipe não poderia ser mais protetora comigo,” diz Balfe com carinho, sobre filmar essas cenas, “e Ned Dennehy, que interpreta Lionel, é simplesmente um amor e é muito respeitoso. Essas cenas são difíceis, mas você precisa apenas ir até lá com a personagem até certo ponto e tentar honrar essa experiência horrível pela qual ela está passando.”

O ataque assume uma dimensão ainda mais feia, depois que Lionel revela que ele sabe que Claire é, na verdade, o misterioso Dr. Rawlings, que em suas palavras tem “espalhado ideias perigosas, dizendo às mulheres como enganar seus maridos, como negar a eles seus direitos concedidos por Deus.” Na realidade, o que Claire fez em seu boletim do Dr Rawlings foi aconselhar sobre contracepção, para que mulheres, como a esposa de Lionel, pudessem tomar decisões para evitar engravidar de seus cônjuges abusivos.

Como todas as conversas que ocorrem em nossa nova realidade pandêmica, meu telefonema com Balfe começou com alguns minutos de conversa desorientada sobre o lockdown, cada um de nós isolado em nossas respectivas casas. E, quando nos voltamos para discutir a maneira como a agressão sexual de Claire é enquadrada como uma ferramenta violenta do patriarcado, Balfe aponta a ressonância oportuna da história à luz de uma estatística preocupante que emergiu do confinamento. “Os casos de violência doméstica e sexual contra mulheres dispararam. É fácil colocar essas coisas na TV e falar sobre isso em termos de dispositivos da história e assim por diante, mas ainda não estamos tendo as conversas adequadas sobre por quê isso ainda é tão prevalente.”

Outro aspecto da série que ganhou nova ressonância é o papel de Claire como médica, em um momento em que os profissionais de saúde são legitimamente aclamados como heróis. “Você realmente vê que é um dom que as pessoas têm,” diz Balfe, lembrando de um segmento recente da BBC que ela viu que mostrava pessoas que se recuperaram do coronavírus. “Um deles era um jovem médico e, no instante em que melhorou, ele estava voltando para ajudar novamente. Foi extraordinário de assistir.” É fácil imaginar Claire agindo com a mesma firmeza diante de uma pandemia (vocês se lembram de quando ela salvou Paris de um surto de varíola na segunda temporada?) “É mais do que uma carreira, é uma paixão e um dom e estou muito feliz que conseguimos vê-la cumprir esse lado dela ainda mais este ano. Eu senti falta disso na última temporada.”

O orgulho e a gratidão de Balfe são palpáveis, ​​enquanto ela fala sobre a série e seus fãs dedicados. Mas um lado sombrio da experiência de Outlander veio à tona mês passado, quando Sam Heughan falou sobre o “abuso” que ele sofreu de agressores na internet que o submeteram a insultos, perseguições e ameaças de morte. Pergunto a Balfe se ela passou por tratamento semelhante, embora ambas saibamos que a pergunta é quase retórica. “Sim, muito,” ela confirma, antes de enfatizar que as vozes negativas são um subconjunto muito pequeno do que é basicamente um adorável grupo de fãs. “O que é estranho para mim é o desejo de seguir algo com tanto fervor, dedicar tanto tempo a isso, mas odiar as pessoas envolvidas. Eu simplesmente não entendo. E como alguém que sofreu bullying quando criança, não é algo que eu pensei que teria que enfrentar novamente nos meus 30 anos.”

Em cinco temporadas, diz Balfe, tanto ela quanto Heughan aprenderam amplamente a navegar por esse aspecto do grupo de fãs, mas há momentos – principalmente nos últimos tempos – que pareceu mais difícil administrá-los. “Tento ignorar o máximo que posso, mas entendo por quê Sam falou. As pessoas podem dizer o que quiserem de mim, eu realmente não me importo, mas quando as pessoas vão atrás das pessoas com quem estamos – quando vão atrás do meu marido ou de quem [Sam] está namorando – é quando as coisas são realmente dolorosas. Você percebe que, por causa da carreira que escolheu, outras pessoas em sua vida estão se machucando e elas não escolheram nada disso. É aí que ultrapassa o limite.

As gravações da sexta temporada de Outlander deveriam começar esta semana, mas agora estão no limbo, juntamente com inúmeras outras produções. No entanto, Balfe tem uma noção de onde as coisas irão e espera que este capítulo sombrio para Claire estabeleça as bases para um rico arco de recuperação. Dada a própria história de Jamie, ela também espera que Outlander possa contar uma história que parece relativamente sem precedentes na televisão: a experiência de um marido e uma esposa que sobreviveram à violência sexual. “Não sei se você pode considerar isso uma sorte, mas o que será útil para ela é que Jamie entende e teve sua própria experiência com isso. Eles poderão compartilhá-la de alguma forma. Temos a oportunidade de ver isso de uma maneira muito única, por isso espero que possamos fazer algo ótimo com isso.” E apesar da Claire ter uma feição frágil e corajosa durante grande parte do final, Balfe diz inequivocadamente que seu trauma será explorado ao longo de muitos episódios futuros.

Claire é uma personagem que é muito chamada de ‘uma mulher forte’ e acho que, às vezes, isso pode ser uma armadilha,” ela sugere. “Esse tipo de coisa pode acontecer com qualquer pessoa e parece importante mostrar que a força não está na capacidade de superar algo, ou na capacidade de abrir caminho em todas as situações. Acho que a Claire precisa sentir que isso não a destruirá, mas você não passa por algo assim sem que isso te mude profundamente.

Se você ou alguém que você conhece foi afetado por abuso sexual e precisa de ajuda, acesse mapadoacolhimento.org, eles possuem profissionais habilitados a ajudar quem precisa de ajuda em momentos como esse.