NY Times: “A primeira vez que eu saí de casa (e me apaixonei).”

  • 09 de julho de 2018

Por Caitriona Balfe

Através de uma nuvem de fumaça de cigarro, quatro homens silenciosamente me observavam, enquanto eu caminhava pelo café vazio até uma mesa próxima à janela. A garçonete me jogou um cardápio e ficou lá, com um quadril inclinado, esperando pacientemente pelo meu pedido.

Passei os olhos, nervosa, pelo menu escrito a mão, procurando por qualquer coisa conhecida.

Jambon,” gaguejei, meu cérebro registrando um lampejo de reconhecimento de um aula de francês há muito esquecida. “Jambon, s’il vous plait,” me aventurei. A garçonete se afastou e, em minutos, me serviu o meu plat du jour [prato do dia], para cada “jour” daquela semana. Um sanduíche de presunto.

Ah, e eu mencionei que odeio presunto?

Tudo começou com uma papel amassado de instruções e um convite. Eu tinha 19 anos e indo morar no exterior pela primeira vez, e não em qualquer lugar, mas em Paris. A cidade do amor e da cultura, de Yves Saint Laurent, Gertrude Stein e do Louvre. Era tão longe da minha cidadezinha na Irlanda quanto eu podia imaginar. Eu sonhava em passear pelo Sena, conversando intensamente com um um jovem francês mal-humorado chamado Pierre. Em deixar marca de batom vermelho em taças de vinho e, casualmente, apagar bitucas de cigarros em pires de café, enquanto ouvia os namorados brigando nas varandas dos cafés. Em suma, eu tinha assistido muitos filmes franceses. Seria exatamente assim, não é?

Rapidamente, ficou claro que a minha jornada de protegida garota irlandesa do interior para francesa sedutora teria um longo caminho a ser percorrido. O primeiro passo era apenas conseguir sair do aeroporto.

Dizer que eu era uma viajante imatura era um eufemismo. Na verdade, essa foi apenas a minha terceira vez fora da Irlanda. Mas eu sempre tinha sonhado em viajar o mundo e, assim, quando o olheiro de modelos havia vindo à Dublin três semanas antes e me oferecido um contrato, eu aproveitei a chance. Na época, eu era uma estudante do primeiro ano de teatro e modelava de vez em quando para ter dinheiro extra. E agora, aqui estava eu, perdida na vasta extensão do aeroporto Charles de Gaulle, com a minha animação rapidamente se tornando em ansiedade.

Após percorrer o saguão várias vezes, me aproximei de uma mulher que parecia ser autoridade e perguntei como chegar à rodoviária. Ela soltou instruções em francês e, por fim, notando o meu olhar perdido, rapidamente me levou até uma saída. Levei uma eternidade para encontrar o ônibus certo, mas, de alguma maneira, uma hora depois, me encontrei tocando a campainha da agência Ford Models.

Meu primeiro mês foi muito mais difícil do que eu esperava. O constante fluxo de rejeição de testes começaram a me desgastar. Eu me perdia constantemente. Ninguém entendia as minhas tentativas constrangedoras e hesitantes de falar francês. O lindo apartamento em que a agência havia me colocado era de propriedade e ocupado por um português meio esquisito, que tinha vontade demais de virar amigo de suas jovens inquilinas. Eu entrava de fininho após um longo dia de trabalho, com o pé cheio de bolhas, e tentava chegar ao meu quarto antes que ele pudesse insistir para eu me juntar a ele e seus amigos para o jantar.

Como sempre, as coisas nunca saem do jeito que esperamos. Em uma manhã de outono, cheia de saudades de casa, caminhei em direção a Les Halles e fiquei à sombra da igreja St. Eustache. Eu me virei e um nome familiar chamou a minha atenção: Quigley’s Point, um pub irlandês! Quando a porta se abriu, um coro de gritos e risadas me envolveu e me atraiu para dentro. A minha total imersão na cultura francesa poderia começar novamente amanhã, mas agora, pedir uma cerveja e uma porção de batata fritas era o que eu precisava.

Foi a voz que eu notei primeiro. O grosso sotaque do Condado de Mayo e a risada rápida. Ele estava de pé à minha direita, ele tinha olhos gentis e cabelos loiros descoloridos e espetados. Ele não era o mal-humorado Pierre das minhas fantasias, mas pelo menos poderíamos conversar um com o outro. Ele morava em Paris há quatro anos e falava francês fluente, então pelo menos havia isso. Ele me encorajou a deixar o meu senhorio e logo encontrei um lugar meu, no Marais, com uma garota australiana.

Depois de seis meses, meu francês melhorou ao ponto de os lojistas parisienses pararem de fingir que não falavam inglês; felizes de que eu havia feito um bom esforço na língua deles, ele falariam comigo na minha, não importa o quanto eu persistisse no francês. Encontrei um lugar escondido na Île de la Cité, onde eu passava horas nas manhãs de fim de semana lendo e observando as pessoas passeando pelas margens do Sena. Caminhei pelos salões do Louvre, Musée d’Orsay, Pompidou e Musée Rodin em admiração. Meu trabalho de modelo finalmente deu certo. Eu estava crescendo e aprendendo sobre o mundo.

Há um momento na sua história em que você pode identificar a hora exata em que você se apaixonou, seja por um lugar ou uma pessoa. Eu me lembro de ambos como se fosse ontem. Eu havia acabado de sair de um teste em que, novamente, fui humilhantemente rejeitada na frente de 20 de meus colegas. Segurando as lágrimas, eu saí depressa do prédio e corri para um parque próximo, esperando encontrar um lugar isolado. Os meus olhos ardiam, me permitindo se recompor, eu olho para o céu na esperança de um conforto divino e, de repente, tudo parou.

Eu percebi que estava rodeada pela praça mais linda, a Place des Vosges. Com as suas paredes cor-de-rosa, a praça brilhava suavemente à luz do sol e irradiava calma e beleza. Os meus soluços diminuíram e fui atingida pelo mais poderoso senso de gratidão. Esqueci do diretor do teste que acabara de me reduzir a nada. Eu não era nada. Eu era uma jovem irlandesa e eu estava qui, realizando um sonho e vivendo na cidade mais linda do mundo.

A minha história de amor paralela, aquela com o meu namorado irlandês, foi solidificada uma noite com um beijo sonhador do lado de fora do Panthéon. Eu estava loucamente apaixonada por um homem e uma cidade, ambos inexplicavelmente entrelaçados. Meu namorado, no entanto, tinha coceira nos pés. Ele queria estar em um lugar calmo e rural. Eu o segui para os Alpes, mas logo me senti enjaulada pelas montanhas e pelas árvores. Eu queria mercados barulhentos, ruas movimentadas. Discutimos e discutimos, o sonho de uma pessoa puxando contra o da outra.

Eu voltei para Paris. Ele ficou nas montanhas. Eventualmente, porém, eu segui em frente: para Londres, Nova York, Los Angeles e depois Glasgow, cada uma com a sua própria magia e beleza.

Mas em certos dias de sol, eu sempre sou levada de volta ao meu banco na Place des Vosges e meu coração se enche por um instante. É verdade, você nunca se esquece do seu primeiro amor e, para mim, ele sempre será Paris.

Caitriona Balfe

A atriz agora estrela a série do canal Starz, Outlander.

Uma versão impressa desse artigo apareceu na edição de 8 de outubro de 2017 na página AR7, do New York, com o título “Eu Saí de Casa (e Me Apaixonei)”.